segunda-feira, março 20, 2006

A fundação da freguesia do Faial

A freguesia teve origem na fazenda povoada que ali existiu e que tinha uma capela da evocação de Natividade de Nossa Senhora, e possuía capelão pago pela fazenda real desde 1531. A primitiva construção encontra-se ligada a duas lendas, ou pelo menos histórias não documentadas: primeiro, ao aparecimento naquele local de uma imagem da Virgem; segundo, à construção da primitiva capela com um só pau de cedro, o que é perfeitamente plausível, dada a envergadura de algumas árvores existentes na Ilha.
O primeiro capelão foi o padre João Soares, alguns anos antes beneficiado na praça africana de Arzila. Tinha competido à Madeira um dos principais esforços na acção portuguesa no Norte de África, tendo os capitães da Madeira e os seus filhos participado nas várias etapas do trabalho ali desenvolvido. Assim, em 1470/71, participou o filho do Zarco, João Gonçalves da Câmara, futuro 2ª capitão do Funchal, na conquista de Arzila, dirigida por D. Afonso V e, por essa altura, igualmente Tristão, capitão de Machico, participou em expedições ao Norte de África e em razias nas Canárias. Nesta sequência, ficou reservada à Madeira uma parte do esforço de conservação dessas praças portuguesas, até porque a maior parte das mesmas, ficarem mais perto da Ilha, que de Lisboa.
Quando o alvará régio de 20 de Fevereiro de 1550 criou esta freguesia, foi o referido sacerdote nela provido como seu primeiro pároco, tendo-lhe sido arbitrada a côngrua anual de 3$000 réis vitalícios, além dos 8$000 réis que já recebia como capelão da referida ermida. Referia-se que, tendo sido beneficiado em Arzila, era então compensado com o conjunto da côngrua atribuída.
No entanto, logo a 11 de Março seguinte, novo alvará de D. João III determina que se pagasse ao vigário João Soares 6$000 réis anuais, da capelania de Nossa Senhora do Faial, pois desde 1531 que só recebia 5$000 anuais. Não percebemos as contas feitas, pois em 1572, quando da reforma da Mesa da Consciência e Ordens de D. Sebastião, foi efectuado um acrescentamento de 6$700 réis ao anterior ordenado, de forma a ficarem 20$000, dado o ordenado anterior ser de 13$700.
A reforma de D. Sebastião visava a implantação das directivas do Concílio de Trento, que obrigavam os párocos a ensinar doutrina aos seus fregueses. O ordenado de 20$000 réis era para os párocos com freguesias com menos de 100 fogos e acrescenta este alvará, que “sob pena do desconto anual de 4$000 réis” para os párocos que o não fizessem.Era então pároco do Faial o padre Bernardo do Quintal, que logo contestou o alvará, afirmando ter a sua freguesia 109 fogos, pelo que, por apostilha de 20 de Junho do mesmo ano passou a receber 25$000 réis, que era o quantitativo atribuído às freguesias de mais de 100 fogos. Não devia ser bem assim, pois em 1590, quase 20 anos depois, como já referimos, o Dr. Gaspar Frutuoso escrevia que “Terá esta freguesia como cem fogos”. O quantitativo de 25 mil réis era devido a haver mais de 100 fogos, assim como ter esta igreja também “obrigação das missas dos Infantes”, ou seja obrigação de celebrar anualmente missas por alma dos infantes D. Henrique e seu sobrinho D. Fernando.
Estes alvarás régios elevaram assim o vencimento anual do vigário respectivamente a 20$000 réis e 25$000 réis, fixando o alvará de 14 de Dezembro de 1588 um acrescentamento de 30 alqueires de trigo e um quarto de vinho para as “despesas de sacristia”, assim como se fixa em 3$000 réis as despesas com as missas dos Infantes. Ficava assim instituída a partilha dos ordenados eclesiásticos em dinheiro e espécie, o que, ao longo da história da Ilha, seria depois disputado pelos restantes funcionários régios.
Em 15 de Novembro de 1591 ainda se alterava a côngrua para 19$000 réis em dinheiro, um moio de trigo e um quarto de vinho, mantendo os 3$000 réis para as missas dos Infantes. Somente por alvará régio de 17 de Abril de 1780, foi este vencimento oficialmente elevado, então para 22$000 réis em dinheiro, dois moios de trigo e duas pipas de vinho, incluindo-se no global o devido às missas do Infantes.
Como ficou escrito, foi o padre João Soares o primeiro pároco desta freguesia, a que sucessivamente se seguiram os padres Bernardo de Quintal, em 1572, Sebastião Gonçalves, Cristóvão Ferreira, Francisco José Fernandes, por carta da Ordem de Cristo de 13 de Abril de 1641, Henrique de Madureira Figueira, que em 1644 pediu ornamentos para a matriz, António Luz Silva, com carta da Ordem de Cristo de 15 de Dezembro de 1667, Pedro Catanho de Meneses, também, de 22 de Agosto de 1688, Manuel Catanho de Meneses, que em 1699, sabemos envolvido na construção da muralha e reconstrução parcial do edifício, Jacinto Lourenço Baptista, por carta da Ordem de Cristo de 18 de Maio de 1722, António da Silva Vieira, idem, de 8 de Junho de 1740, etc.
O aumento da população determinou ainda a criação de um curato, que foi autorizada pelo alvará régio de 11 de Fevereiro de 1746, tendo sido o padre Pedro Catanho o primeiro que exerceu este lugar e ao qual se fixou o ordenado anual em espécie de um moio e meio de trigo e uma pipa e meia de vinho.

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