segunda-feira, março 20, 2006

A Igreja primitiva

A primitiva capela, citada algumas vezes como ermida, mas também como igreja, ficava situada na margem esquerda da caudalosa ribeira, sofrendo constantemente a ameaça das águas da mesma. Nesse sentido, pelo menos em 1699, temos referência à construção de uma poderosa muralha para a proteger, no entanto, mesmo assim, poucos anos depois, uma terrível aluvião, danificou bastante a primitiva capela, inclusivamente, arrastando o túmulo do Rei Pequeno para o mar, como já escrevemos. É tradição, ter tido a primitiva capela origem num milagre. Alguém teria encontrado uma imagem de Nossa Senhora nas serras, entre as faias, tendo então sido construída a capela para a imagem aparecida de Nossa Senhora do Faial. Mais tarde, assaltando o mar alterado a primitiva capela, levou a imagem, reencontrada depois na Pedra da Pescaria, segundo lenda mais completa que voltaremos a descrever. Também da lenda da imagem aparecida de São Roque nos ocuparemos a seu tempo.
São comuns em Portugal e na Madeira estas lendas, principalmente, envolvendo as águas do mar e lendas que passaram também ao Ultramar. Assim, a imagem de Nossa Senhora do Monte apareceu junto à fonte e, construída a capela, voltava à fonte. A imagem do Senhor Jesus de Ponta Delgada foi encontrada dentro de uma caixa de madeira, perto do mar e, a imagem de Santiago de Câmara de Lobos, foi pescada no mar.
Entre outras, temos a lenda de uma imagem de Santo António encontrada nas praias da cidade do Salvador da Baía, no Brasil e que teria pertencido à capela da ilha de Arguim, na Mauritânia, saqueada pelos corsários franceses. A imagem foi recolhida no convento franciscano da Baía e o Santo seria elevado a padroeiro da cidade em 1597. É possível que por detrás desta lenda esteja a comunidade madeirense da Baía, dada a antiga ligação de Arguim à Madeira.
Também na contra-serra do Faial, ou seja no Santo Serra, na costa Sul, reza a tradição que foi encontrada uma imagem de Santo António, pelo que se fez a primitiva capela para a albergar. É igualmente comum a referência a que a imagem fugia de noite, voltando às serras, interpretando-se o ocorrido como não ser o templo digno dela e obrigando as pessoas a aumentarem a inicial capela.
Por outro lado, a referência a ter sido este primitivo templo todo lançado interiormente com a madeira "de um só pau de cedro", o que indica dimensões perfeitamente extraordinárias para a árvore em causa e é muito provavelmente verídico. Existem referências a árvores deste porte nos iniciais anos de povoamento da Ilha, e não só na costa Norte como até na área do Funchal, citando e descrevendo Gaspar Frutuoso, por exemplo, o funcionamento da célebre serra de água do Faial, como única possibilidade de serrar "tão grandes paus, como nela (serra do Faial) há".
A tradição da construção da matriz do Faial com um só tronco de cedro foi vinculada por Henrique Henriques de Noronha nas suas Memórias Seculares e Eclesiásticas, trabalho encomendado pela recém criada Academia Real da História Portuguesa, datado de 1722, mas que descreve a anterior matriz, então parcialmente arruinada e a ser reconstruída.
Descreve assim o cronista a costa Norte: “Adiante, uma légua do Porto da Cruz, fica a igreja Paroquial de Nossa Senhora do Faial, cujo nome tomou do lugar, onde se diz que foi achada a sua Imagem, por haver nele grande quantidade de faias, sendo a sua invocação da Natividade, de que faremos mais dilatada memória no título das Romagens, por ser de grande devoção e concurso. A Igreja é nobre, toda edificada de cantarias e se diz que foi fabricado toda de um só pau de cedro, que ali se achou. Está situada ao pé de um monte entre duas ribeiras” . Por esta época, embora um pouco antes, também frei Agostinho de Santa Maria (?; 1728) no seu tomo X do Santuário Mariano e História das Imagens Miraculosas de Nossa Senhora e das Milagrosamente Aparecidas refere que “a igreja era muito grande e de grande comprimento e largura, e ainda assim dizem que foi toda emadeirada com a madeira que deitou um só pau de cedro, sinal que devia ser muito grande ou grandíssimo, o qual se achou ali perto da mesma ermida de Nossa Senhora”.
A importância da capela de Nossa Senhora do Faial pode ainda ser enquadrada na romaria, já amplamente descrita pelo Dr. Gaspar Frutuoso: “Pelo seu dia que vem a oito de Setembro, se ajuntam de romagem de toda a ilha passante de oito mil almas, onde se vê uma rica feira de mantimentos e de muita carne gostosa (...). Ali se ajuntam muitos cabritos e frutas, e outras coisas de comer, para os romeiros comprarem, os quais muitas vezes se deixam estar dois, três, e mais dias em Nossa Senhora, descansando do trabalho do caminho, porque vem de dez e doze légua, por terra muito fragosa, e juntos fazem muitas festas de comédias, danças, e musicas de muitos instrumentos de violas, guitarras, flautas, rabis, e gaitas de fole. E pelas faldas das ribeiras, que tem grandes campos, no dia de Nossa Senhora e em seu oitavário, se alojam os romeiros em diversos magotes, fazendo grandes fogueiras entre aquelas serranias”

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